O impulso
Quarta-feira.Estava voltando de mais um dia de escola.Caminhando,escutando minhas canções Bob Dylan.Meus olhos se cruzaram com o dele.Já fazia um tempo que eu o observava.Ele sentado na calçada irregular da rue Saint Paul,fazendo seus artesanatos,e o gato se lambendo as patas ao seu lado.Cada vez que passava tinha vontade de sentar ali e dizer alguma coisa.Nesse dia tudo começou.
Disse um “oi” meio sem jeito e perguntei se poderia sentar.Ele me aconchegou o casaco e eu me coloquei ao lado dele.Começamos a conversar,assim,impulsivamente,sobre tudo.Sobre o que ele e eu fazíamos ali naquela rua,dos nossos planos e não planos pra vida,do por do sol ali na nossa frente.Ele viajou pelo mundo durante sete anos,sem nada fixo,nada.Ele é o extremo do que eu quero pra mim.Pegamos a bicicleta e andamos pelas ruelas de Paris,fumamos e conversamos sobre as viagens que gostaríamos de fazer,e que poderíamos ir juntos.Isso tomou apenas duas horas do meu dia,e já foi assim,como um tiro.Ele pegou na minha mão e me abraçou bem forte.Fui pegar um casaco,ele me esperou,e partimos.
Andamos na beira do canal Saint Martin de mãos dadas.Nos beijamos loucamente,como se tudo aquilo fosse acabar no dia seguinte.Fiquei com ele o dia todo,não fui à aula e ele não trabalhou.Eu lhe disse meus medos e ele me disse que está sozinho na vida,não tem mesmo domicilio fixo,e aí minha loucura tomou uma dimensão enorme.Tive mais vontade de estar com ele,e ao mesmo tempo mais vontade de deixá-lo.
Estamos assim,há quatro dias.Ele me diz coisas pra vida inteira,e eu digo o que sinto agora,e isso nos basta.Não quero saber o resto.Penso o tempo todo: “o que a minha família diria disso?” , afinal,ele não tem um emprego formal,domicilio fixo,e usa o mesmo suéter todos os dias.Mas quero viver essa experiência,por mais um,dois,dez dias.Não sei.Quero absorver tudo o que puder daqui.
Minha cabeça dói.É tudo assim,grande demais.Eu to ensurdecendo por dentro.É felicidade,medo,vontade,satisfação,lágrima,lágrimas por tudo.Engraçado porque o que mais me inquieta é o julgamento dos outros.Da família,dos amigos,dos vizinhos.To vivendo,sem pensar,sem refletir.Escondi o gato dele dentro do meu quarto,ele mijou por tudo,e agora estou estressadíssima porque a menina que mora comigo pode ver tudo,se enfurecer .E eu o fiz mesmo assim.Me emerdei e às vezes rio de tudo isso,me dizendo “Roberta,tu é louca menina”.Lembro-me de toda aquela fragilidade,e é só isso que não quero pra mim,toda aquela flacidez na minha vida.Prefiro assim,um salto,um impulso,experiência,vivenciar essas loucuras agora.Depois é tarde,sempre é tarde depois.
Às vezes olho pra ele e me sinto livre,forte,capaz de fazer tudo.E de repente sinto-me sufocada,sem saber muito como reagir,é como uma droga,é intenso demais,te dá prazer e te machuca.O David está me ensinando sobre a vida,ao extremo,machucando e me dando muito prazer.E agora cada um pro seu lado,ele me doou muito de si,e isso eu carrego pro resto da vida.Quando escutei “agora você tem uma boa experiência pra contar pros teus filhos”,isso me tocou duma maneira inexplicável.Provavelmente porque eu sempre achei que minha vida não se passava de uma cópia da vida dos meus pais,e que não teria nada a contar.Mas mais do que isso,o David me ensinou sobre o tempo,o amor,e sobre a liberdade,sobretudo a liberdade.
mercredi 14 avril 2010
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