dimanche 3 juillet 2011

o homem invisível

Sair da sala de cinema é sempre um momento especial pra mim. As luzes se acendem e as pessoas retornam à realidade lentamente. Os diálogos cortam o silêncio rigoroso e ao caminho da saída, as cenas do filme repassam em minha cabeça, e tudo adquire um sentido ficcional, temporário.
Hoje saí com uma sensação inquieta, mesmo tendo assistido a uma comédia. Tive a sensação de que deveria ir para algum outro lugar, tive vontade de conversar com as pessoas, perguntar-lhes o que acharam do filme, o que iriam fazer...saí. Logo na entrada me encostei na porta do cinema e resgatei da bolsa uma revista com a programação do domingo a noite. Nada. Olhei com desânimo para a rua movimentada. Vejo então um senhor se aproximando, carregando inúmeras sacolas cheias de revistas e jornais. Ele parou logo de frente para mim e me estendeu a mão, “Olá querida, como vai?”. Assustei-me, não esperava o toque de alguém naquele dia. Cumprimentei-o confusa e respondi que ia bem.
Alguns minutos depois estávamos conversando sobre música, cinema e fotografia e dividíamos um saco de pipoca que comprei ao lado. “Salgada, não é?” falei. Com a boca cheia ele apenas concordou com a cabeça. “Qual o seu nome?” perguntei. “Sem nome, pode me chamar de sem nome”. Sorri discretamente e ofereci ao homem mais pipoca.
Sem-nome expressava-se bem, conhecia autores clássicos, compositores e diretores de filmes consagrados. A cada obra que citava, tirava da sacola uma revista ou um panfleto com algo a respeito de seu ídolo. Mostrou-me fotos de Janis Joplin, Bob Dylan, Martin Scorsese, Gérard Depardieu. Falou-me com orgulho que era músico e cantou “blowing in the Wind” de Dylan. Espantei-me com a delicadeza e a beleza de sua voz, escondida embaixo de uma barba comprida e grisalha e de um gorro preto, que o protegia do vento gelado dessa noite. Sem-nome havia sofrido de um aneurisma, mostrou-me a cicatriz no canto esquerdo da cabeça e me disse que tinha problemas de memória. “Como é seu nome mesmo, querida?”,perguntou-me pela terceira vez.
O olhar das pessoas que passavam por nós era misterioso, indagador. Talvez a cena de um andarilho já curvado pelo tempo comendo pipoca com uma jovem na porta do cinema fosse realmente incomum. Mas incomodei-me com um certo ar reprovador. Reparei em dois homens que nos seguiam milimetricamente com os olhos. Sem-nome sussurrou “são os policiais a paisana, eles acham que sou algum marginal’. Sorri sem jeito. Mas o senhor insistiu “Não ligue pra eles, são todos canalhas...estão querendo nos deixar desconfortáveis”. Virei as costas para um deles e gargalhei exageradamente, para mostrar meu entusiasmo de estar ali conversando com um homem invisível e desconhecido.
O tempo passou e o vento já estava gelado demais. “vou embora”, disse. Sem-nome assentiu com a cabeça e me deu a mão “Seja feliz, é uma ordem! Foi um prazer enorme conhecê-la, menina.” Apertei as mãos manchadas e enrugadas do homem e desci a rua. Senti o vento contornando meu rosto e tive a sensação de estar em outro lugar. Sorri. Uma calma repentina tomou conta de mim e peguei o caminho para casa. Olhei ao redor e me senti invisível também.